Monad: EVM Paralelo com 10.000 TPS Sem Mudar Solidity
Março de 2026. BTC a US$ 71 mil, Fear & Greed em 11, dominância do Bitcoin em 58,6% (CoinMarketCap, 24 de março de 2026). O mercado está em modo de sobrevivência, mas os fundos de venture capital continuam alocando em infraestrutura. E um dos maiores cheques recentes foi de US$ 225 milhões para um time de ex-traders de alta frequência que quer fazer o EVM rodar 1.000 vezes mais rápido. Sem mudar uma linha de Solidity.
Esse projeto é o Monad.
O Ethereum processa transações uma de cada vez. A transação #2 espera a #1 terminar, mesmo que as duas mexam em partes completamente diferentes da rede. É como ter uma rodovia de 64 faixas, mas só liberar um carro por vez.
O Solana resolveu isso com execução paralela. Mas pediu que todo mundo aprendesse Rust e reescrevesse tudo do zero. Resultado: rápido, mas isolado num ecossistema próprio com uma fração dos desenvolvedores.
O Monad faz a pergunta óbvia que ninguém tinha respondido: e se a gente paralelizasse o EVM sem mudar nada na camada do desenvolvedor? Mesmo Solidity. Mesmas ferramentas. Mesmos contratos. Só que absurdamente mais rápido.
US$ 225 milhões levantados de Paradigm, Dragonfly e Electric Capital (Crunchbase, 2024). Time vindo do Jump Trading, onde microssegundos valem milhões. Essa gente sabe construir sistemas de alta performance.
Vamos destrinchar.
Por que o EVM é lento (e por que ninguém consertou)
O EVM (Ethereum Virtual Machine) executa transações sequencialmente. Uma após a outra. Não importa se a transação A é um swap no Uniswap e a transação B é um mint de NFT que não tem nada a ver. B espera A terminar.
Ethereum: ~15 TPS. BSC: ~50-100 TPS. Polygon: ~30-60 TPS. Todos herdaram esse gargalo.
Rollups ajudam movendo transações para fora da chain, mas dentro do próprio rollup a execução continua sequencial. O problema fundamental nunca foi resolvido.
As alternativas radicais (Solana, Aptos, Sui) foram por outro caminho: VMs customizadas, linguagens novas, execução paralela nativa. São rápidas. Mas os ~200 mil devs de Solidity, os bilhões em contratos auditados, o ferramental do ecossistema EVM? Ficaram para trás.
A tese do Monad
A maioria das transações num bloco não conflita entre si. Estudos em blocos reais do Ethereum mainnet mostram que menos de 5% das transações de um bloco mexem no mesmo estado (Monad Whitepaper, 2024).
Se 95% das transações são independentes, por que executar todas em fila?
O Monad construiu sua solução em três pilares.
Execução paralela otimista
O Monad pega um bloco de 10.000 transações e lança todas simultaneamente em múltiplos threads. Cada transação executa em paralelo, e o sistema rastreia quais partes do estado cada uma lê e escreve.
Depois da execução, vem a checagem. A transação #500 leu algum estado que a transação #200 alterou? Se sim, re-executa a #500 com o estado atualizado. Se não, mantém o resultado.
Na prática, conflitos são raros. O overhead de re-execução é mínimo.
Essa técnica se chama controle de concorrência otimista. Bancos de dados usam há décadas. O Monad é o primeiro a aplicar isso seriamente numa blockchain EVM.
MonadBFT: consenso pipelinado
O consenso tradicional BFT funciona em etapas: propor bloco, votar, finalizar, e só depois executar. Tudo sequencial. O MonadBFT faz pipeline dessas etapas.
Enquanto validadores votam no bloco N, já estão executando o bloco N-1 e preparando o N+1. A chain nunca fica ociosa. As etapas se sobrepõem como numa linha de montagem industrial.
MonadDb: storage feito do zero
O gargalo oculto do EVM é o disco. Cada transação lê e escreve estado (saldos, storage de contratos). O Ethereum usa LevelDB, um banco de dados genérico que não foi otimizado para padrões de acesso de blockchain.
O MonadDb foi construído especificamente para isso. I/O assíncrono: leituras de disco não bloqueiam a execução. Otimizado para SSDs NVMe. Travessia eficiente de Patricia tries para provas de estado.
A maioria do "tempo de execução EVM" é, na verdade, espera por leituras de disco. Eliminar esse gargalo sozinho já dá um ganho massivo de performance.
Por que não usar Solana então?
É a pergunta justa. Solana é rápida, funciona, tem ecossistema crescente.
A resposta está nos números do ecossistema. O EVM tem ~200 mil desenvolvedores Solidity contra ~20 mil devs Rust/Anchor no Solana (Electric Capital Developer Report, 2025). O TVL em chains EVM passa de US$ 100 bilhões (DefiLlama, março de 2026). Milhões de contratos deployados e auditados.
No Monad, você faz deploy do Aave, Uniswap ou Compound como estão. Sem reescrever uma linha de código. Mesmas carteiras. Mesmo ferramental. Mesmos auditores.
No Solana, você reescreve tudo em Rust. Nova linguagem, novos auditores, novo ferramental.
O Monad não está competindo contra o Solana em velocidade bruta. Está trazendo velocidade para onde os desenvolvedores já estão. E se a tese modular do Celestia (leia mais na nossa análise sobre Celestia) se confirmar, o Monad pode ser a camada de execução perfeita para rollups que precisam de performance EVM.
O time por trás
Keone Hon (CEO) e James Hunsaker (CTO), ambos ex-Jump Trading. Construíram sistemas de trading de baixa latência que processam milhões de transações por segundo. Sistemas onde microssegundos significam milhões de dólares.
Isso não é ciência da computação teórica. É engenharia de produção testada no ambiente mais exigente que existe: trading de alta frequência.
Com US$ 225 milhões levantados dos maiores fundos do mercado, é um dos lançamentos de L1 mais bem financiados da história.
Os riscos reais
Overhead de conflitos. Se a taxa de conflitos for maior que o esperado (durante um mint popular ou um evento que todo mundo opera na mesma pool), a performance degrada. Pior caso, cai para execução sequencial. Mas nunca fica pior que um EVM normal.
Requisitos de hardware. Execução paralela e o MonadDb exigem hardware pesado: CPUs com muitos cores, SSDs NVMe rápidos, 32GB+ de RAM. Isso levanta questões de centralização. Nem todo mundo consegue rodar um validador.
Mercado lotado. Sei (EVM paralelo), MegaETH (EVM em tempo real) e as alt-L1s estabelecidas estão no mesmo campo. Compatibilidade EVM é um bom diferencial, mas narrativas se movem rápido em crypto.
Ainda não está em produção. Números de testnet são promissores. Mainnet sob condições adversárias reais e atividade orgânica de MEV é outra história.
Minha leitura
A aposta do Monad é elegante na premissa: o EVM venceu, o Solidity venceu, o ferramental venceu. O que faltava era a camada de execução acompanhar o hardware moderno. O Monad propõe exatamente isso.
Se entregar o que promete, pode se tornar a chain EVM de alta performance por padrão. O lugar onde você deploya contratos Solidity que rodam na velocidade de Solana.
A combinação de execução paralela, consenso pipelinado e storage customizado é o tipo de trabalho de infraestrutura profunda que é difícil de replicar. E o time do Jump Trading já construiu sistemas nessa escala antes.
Agora, vai capturar market share relevante de Solana e das L2s do Ethereum? Depende da execução (sem trocadilho) e do timing. A arquitetura técnica é genuinamente impressionante. O mercado decide o resto.
📚 Leitura complementar
- Site do Monad
- Documentação técnica
- Dados de ecossistema EVM: DefiLlama
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Esse foi o último artigo da primeira temporada do Whitepaper Club. Cobrimos EigenLayer, Hyperliquid, Pendle, Celestia e Monad. Se você perdeu algum, volta e lê a série completa. E inscreva-se na newsletter pra saber quando a segunda temporada começar.
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